Do que eu falo quando eu falo de corrida

Nunca disse para ninguém, mas o livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, do escritor Haruki Murakami, foi como um divisor de águas: como eu pensava antes de ler (duas vezes) e como eu penso hoje. Em resumo, posso simplesmente dizer que aquelas palavras são como um exemplo de disciplina, de serenidade e de experiência. Eu, tão nova e crua na arte da corrida, passava os olhos pelas frases e me sentia completamente ingênua e inexperiente. Literalmente, ainda tenho muito chão para “percorrer”.

Ao descrever os detalhes das maratonas que participou, Murakami deixa a gente marejado de esperança de um dia poder guardar recordações parecidas. Sem dúvida, ler sobre a ultramaratona que ele correu (e completou! Informação relevante) foi super inspirador.

A seguir, alguns trechos marcantes (queria colocar tudo, mas vou deixar só um gostinho). A forma como ele detalha e coloca o sentimento que sentiu naquele dia, quase me transportou para detrás dos olhos dele. A maneira como ele escreve é incrível. Confiram:

“Mesmo com as pernas funcionando, os vinte quilômetros entre a parada de descanso no quilômetro cinquenta e cinco e o quilômetro setenta e cinco foram excruciantes. Eu me sentia como um pedaço de carne passando pelo moedor. Tinha a vontade de seguir adiante, mas agora meu corpo todo se rebelava. Eu me sentia como um carro tentando subir uma ladeira com o freio de mão puxado. Meu corpo parecia que começaria a se desmanchar para dali a pouco se desfazer completamente. Sem óleo, os pinos começando a soltar, as engrenagens girando em falso, eu perdia aceleração rapidamente, enquanto um corredor depois do outro m ultrapassava. Uma senhora minúscula de uns setenta anos ou algo assim passou por mim e gritou: “aguente firme!” Achamos um homem com vida. O que ia acontecer pelo resto do caminho? Havia ainda quarenta quilômetros pela frente.”

[…] “No fim, dei um jeito de cerrar os dentes e vencer os vinte quilômetros restantes de puro tormento. Não sou humano. Sou uma máquina. Não preciso sentir coisa alguma. Apenas seguir em frente. Isso era o que eu dizia a mim mesmo. Isso era só no que eu pensava, e isso foi o que me fez ir até o fim. Se eu fosse uma pessoa de carne e osso, teria desmaiado de dor. Havia definitivamente um ser chamado eu ali presente. E acompanhando-o está uma consciência que é o em-si. Mas, nesse ponto, tive de me forçar a pensar que ambos eram formas convenientes, e nada mais. É uma forma estranha de pensar e, definitivamente, um sentimento bastante estranho — a consciência tentando negar consciência. Você tem de se forçar a ocupar um lugar inorgânico. Instintivamente, eu percebi que era o único modo de sobreviver.

Não sou humano. Sou uma máquina. Não preciso sentir coisa alguma. Apenas seguir em frente.  Eu repito isso como um mantra. Uma repetição literal, mecânica. E tento o máximo que posso reduzir o mundo sensível aos parâmetros mais estreitos. Tudo que posso ver é o chão três metros adiante, nada além. Todo o meu mundo consiste no chão três metros adiante. Não há necessidade de pensar além disso. O céu e o vento, a grama, as vacas mastigando a grama, os espectadores, gritos de incentivo, lago, romances, realidade, passado, memória — tudo isso nada significa para mim. Apenas conseguir superar os três metros seguintes — essa minha minúscula razão para viver enquanto ser humano. Não, desculpe – enquanto máquina.”

murakami-running1

Murakami, Haruki. Do que eu falo quando falo de corrida. Alfanguara Brasil: 1ª ed. 152 páginas. 2010.

“A maior parte do que sei sobre escrever ficção aprendi correndo todos os dias”

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